quarta-feira, 27 de agosto de 2014

jour #3 perdus au rif, trouvés au mariage...



despertámos docemente em chefchaouen, tranquilos e frescos, abrigados do calor pela construção marroquina tingida de azul. os sumos de laranja, os cafés, o pão, o doce, o mel, a manteiga, o azeite... estávamos prontos para uma volta pela cidade, rumo às cascatas que por ela passam, onde se toma banho e se lava a roupa. aqueles que a construíram escolheram bem este sítio. não falta nada. nem o efeito cénico das montanhas que crescem, escarpadas e aparentemente inacessíveis, protegendo a sua face norte dos invasores, inicialmente portugueses.
saímos de chefchaouen antes de almoçar. eram as duas da tarde. dirigimo-nos a bab-taza por uma estrada vermelha (no mapa), com ideias de apanhar outra estrada, branca e depois branca tracejada. para além das autoestradas (vermelhas e amarelas, como a bandeira de espanha), o nosso mapa assinala também as estradas principais (vermelhas), as estradas secundarias (amarelas) e as estradas asfaltadas (brancas). abaixo destas, as não asfaltadas acessíveis todo o ano (brancas, com um dos riscos a picotado) e as não asfaltadas à viabilité incertaine par temps de pluie (brancas, com um dos riscos a tracejado). no fim da legenda, um mero risco tracejado indica "sentier/chemins muletier". confiantes no tempo quente, seguimos.
bab-taza é uma pequena terreola, com muitos restaurantes em torno de uma rotunda exposta ao sol e ao calor. abundam edifícios aos quais custa chamar típicos, mas cuja frequência ao longo da estrada que até aqui nos trouxe, a tal obriga: pequenos caixotes de tijolo e betão, de dois ou três andares, a mais das vezes desermanados (isto é, sós e com terreno à volta) e crus, com o tijolo e o betão expostos ao sol. por vezes, no topo destas casas sem telhado crescem varetas de aço, como cabelos hirsutos escassos numa superfície calva, sonhando em elevar a casa e a sua gente mais uns metros acima do solo. um olho sensível gritaria "crime!", mas os olhos da alma conseguem ver a beleza dos braços que construíram estas casas, porque queriam, porque precisavam, porque sabiam e podiam fazê-lo com os materiais que acharam adequados. testemunhos de uma liberdade e de uma capacidade preservadas de licenças, autorizações e coimas.
em bab-taza encontrámos um simpático cicerone que vendia cigarros à unidade e que nos orientou na confusão da rotunda até um repasto vegetariano e a sardinhas do mediterrâneo (mais saborosas, afiançou) para a metade não veggie da OphéliA. "so, you are a vegetable man...". é isso é... ana nabati, ana nabati...
seguimos pela estrada branca, r419, tendo na ideia chegar à barragem de al wahda, contorná-la por este, e de alguma forma seguir para sul, chegando a fez. não seria assim. nesta altura seguíamos pela estrada que, a julgar pelas placas, era a certa, com as janelas da OphéliA abertas. em breve, enquanto percorríamos as estradas de montanha do rif, começámos a observar extensas plantações de kif (cannabis), que floresciam ali mesmo à beira da estrada, lançando um característico odor pelo ar. uma vista de olhos ao guia elucidou-nos: marrocos é o segundo produtor mundial de cannabis, a seguir ao afeganistão. deixámos-nos ir, acenando simpaticamente às pessoas à beira da estrada. em breve a estrada foi ficando mais íngreme, mais estreita, e o tracejado da estrada no mapa começou a tornar-se real sob os nossos olhos: o asfalto da estrada começou a recortar-se e a encolher-se nas bermas, estreitando a via. de dois carros passou a poder circular um e em breve menos. em alguns pontos os asfalto não teria mais de quinze centímetros e, em breve, o asfalto começou a alternar com a terra batida. tudo em cenário de montanha, entre plantações de kif entre as quais se viam por vezes tendas, por vezes pessoas circulando ou sentadas, algumas sentadas dentro de largos mercedes calejados pela serra. vigilantes? a curiosidade foi vencida pelo respeito e a ideia de fotografar a OphéliA no meio de uma plantação foi descartada, por unanimidade. estaríamos na estrada certa? debatíamo-nos com esta questão quando finalmente nos deparámos com uma terra desconhecida, apenas com placas em árabe. seguramente estávamos bem. parámos num café, entre marroquinos a jogar às cartas e a fumar kif nos característicos cachimbos finos. dois cafés au lait, dois batidos de pêra abacate, baralho de cartas na mesa e tempo de lazer: jogámos uma suecada. retomámos a estrada, apenas para pararmos alguns metros depois, numa bifurcação. placas em árabe, dúvidas e finalmente um ponto de luz: um guarda marroquino em uniforme caqui. onde estamos? fifi. hmm? fifi. olhámos o mapa. fifi não aparecia, mas conseguimos perceber que tomáramos uma estrada branca que a certo ponto, no mapa, deixava de existir. estávamos fora do mapa (escala 1/1.000.000), algures entre bab-taza e mokrissèt. declinada a opção voltar a bab-taza para apanhar a estrada vermelha, restava seguir em frente, pela estrada de montanha não indicada no mapa. "voiture?" perguntou o guarda subindo e baixando a mão, de palma para baixo, indicando os solavancos da estrada. sim. havia dúvidas?
começámos caminho com o sol a descer entre as montanhas. subindo. deixámos de ver plantações. menos pessoas e casas à beira da estrada. a certo ponto, bem no alto a OphéliA não pode prosseguir. há um ajuntamento de pessoas na estrada, música de flautas e tambores, dois burros: um com uma espécie de tenda branca fechada, da qual saíam dois pés, outro com alguém montado, de capuz, rodeado por bandeiras empunhadas por homens entoando cânticos. aterráramos num casamento marroquino. já não seguiríamos mais viagem: esta noite seria de festa.

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