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domingo, 14 de setembro de 2014

jour #14 o fim: entre ceuta e gibraltar, que é como quem diz, entre tanger e tarifa


e pronto: acabou-se. lá voltámos a solo pátrio. muitos quilómetros e alguns posts mais velhos. para os pequenos-almoços de meia de leite e torrada, se tanto. para ruas onde ninguém nos tenta vender nada. de regresso a casa.
uma das partes interessantes de viajar é o regresso a casa. com os olhos cheios de uma outra realidade, é possível olhar para o nosso cantinho de vida e vê-lo de modo diferente. muitas vezes por contraste com o que se acabou de ver. pode ser pela positiva ou pela negativa. exemplifiquemos: temos um país muito mais limpo, com muito menos lixo nas praias e nas ruas. mas temos também um país muito menos vivo. sim, o principal contraste, de fundo e não de forma, deve andar por aí, ao nível da vitalidade. em marrakech, um homem com a nossa idade empurra um carro de mão com o qual vende figos pita a um dirham (nove cêntimos) cada um. cá, provavelmente precisaria de uma licença. a asae talvez detetasse uma mão cheia de infrações às regras de higiene. e isto sem entrar pela parte fiscal... bem pesadas as coisas, cá, com aquela idade, era mais bem jogado ir bater à porta da segurança social para um rendimento social de inserção ou um subsídio de desemprego. e ficar por casa. lá, é alguém que presta um serviço procurado e é pago por isso. cá, é um elemento feio na via pública, que importa afastar. o sistema dificulta que se faça pela vida e favorece que se peça para viver. e esta diferença de postura, entre fazer pela vida e pedir que nos dêem para viver, à escala de um país, explica a diferença de vitalidade.
seria curioso saber o que sucederia ao nosso vendedor de figos pita estando em portugal. insistiria na venda, calcorreando as nossas ruas como uma afronta ao estado de direito regulatório? cederia? não saberemos... o raio-x colocado à entrada do ferrie, em tanger, à cata de pessoas como ele que queiram vir para cá, certifica-se que ele não conseguirá entrar.
pois é, não foi por razões de saúde que a OphéliA, aos 27 anos, foi submetida ao seu primeiro raio-x, ali mesmo à beira de embarcar no ferrie rumo à europa. quis-se antes saber se ela estava grávida. bem vistas as coisas, era uma ecografia! não estava.
tudo isto se passou de manhã, bem cedo, logo após acordarmos junto ao farol e rumarmos a tanger. todo o dia seria feito em registo misto, entre o conduzir e o dormir. parámos em sevilha para uma caña, quebrando o jejum etílico de duas semanas (sim, viram-se os efeitos do álcool à nossa volta, mas nós não o vimos a ele...). soube bem. enquanto bebíamos a cerveja, alguém nos aborda pedindo uma ajuda, dinheiro. se ao menos vendesse figos pita... seguimos caminho, entrámos em portugal. estrada nacional 125. sol de fim de tarde. pôr-do-sol no sítio mais improvável: quarteira. comendo com gosto os fantásticos bolos da pastelaria beira mar. na tv, saíam as condenações do caso face oculta. exemplares. alguns dos senhores que passam e executam as leis das ditas licenças e regulamentos aplicáveis ao nosso vendedor de figos pita iam dentro por corrupção.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

jour #13 pau de canela e mazagão


el-jadida. mazagão durante os mais de duzentos e cinquenta anos em que esta cidade foi portuguesa. a última presença lusa em solo marroquino. abandonada em 1769, na sequência de um tratado de paz com o sultão mohammed iii, a população portuguesa foi transferida para a amazónia, para fundar a nova mazagão.
deixámo-nos preguiçar de manhã pelo hotel royal (bela decoração...) e pelo café do outro lado rua onde serviam o pequeno-almoço, marroquino claro está (ai as saudades...). o ritmo e a força eram já de fim de viagem. se precisávamos de um dia para tanger-lisboa (cerca de 700km, com ferrie), precisaríamos antes de outro para el-jadida-tanger (cerca de 500km).
hesitámos um pouco. seguir logo ou fazer uma pequena volta pela cidadela portuguesa? venceu a segunda hipótese, e venceu bem. a cidadela não é grande, o passeio é agradável, casou bem com a leveza de final de viagem que sentíamos. hora de almoço que era, encontrámos a cisterna portuguesa, principal atração da cidadela, fechada. decidimos por uma volta antes de partir, prescindindo da cisterna, mas o plano sairia furado, e ainda bem. ao fundo da rua vimos uma porta aberta. dela saiu alguém com um tabuleiro e dois pães. seria uma padaria? poderíamos entrar? entrámos. era melhor que uma padaria. era um forno comunitário! foi-nos explicado que as famílias da citadela vinham ali trazer o seu pão para ser cozido no forno. cada família trazia o seu tabuleiro com um pano próprio, o que permitia perceber a quem pertencia o pão. estávamos no local onde os barcos portugueses acostavam na cidade, a porta do mar. havia sardinhas e vegetais no forno, ao cuidado de três homens. foi-nos explicado como se fazia o pão marroquino (para mais detalhes contactar o tiago). perguntámos se era possível comprar um pão. não. era só um forno comunitário. talvez pelo interesse que manifestámos, o senhor que nos foi fazendo as explicações levou-nos a sua casa, ali ao lado. entrámos num pátio onde algumas mulheres se afadigavam em tarefas domésticas: amassar o pão, cortar legumes para uma tajine... circulavam crianças. fizeram-nos dois pães, que o senhor colocou num tabuleiro, dado sem hesitação para as mãos da ana. e lá atravessámos nós as ruas da cidadela portuguesa de el-jadida com um tabuleiro com dois pães, a caminho de um forno. dentro das experiências comunitárias marroquinas a reter, os fornos comunitários ombreiam com os hammams. trazíamos os dois para portugal.
entre tanto tempo, e com mais moleza em cima, já era só mais um bocadinho para vermos a cisterna. foi passear pela muralha virada ao mar, vendo antigas igrejas e sinagogas (os judeus instalaram-se após a saída dos portugueses) e fez-se hora. lá fomos nós. valeu a pena ficar para ver. é uma construção bonita, cheia de jogos de luz, com uma atmosfera de um silêncio profundo.
chegara a hora de começar a viagem de regresso, em modo puro de viagem de regresso. apanhámos a autoestrada em direção a tanger e seguimos. seguimos, seguimos, seguimos. atravessámos rabat (falhámos uma saída), mas rapidamente e com a ajuda de um marroquino a quem demos uma pequena boleia (um feito, dada a quantidade de carga e pessoal residente da OphéliA), lá retomámos a rota. a ideia era dormir em asilah (antiga arzila), e para lá seguimos. jantámos tarde, no autoproclamado melhor restaurante da cidade (não nos deixou grande recordação, pese embora o marketing), e ponderámos o que fazer. passava da uma. verificámos que tínhamos de apanhar o ferrie às oito (depois só à uma...), sendo que de asilah a tanger ainda eram 50km. optámos por nos aproximar de tanger. assim o fizemos. adormecemos os 4 dentro da OphéliA (outro feito), junto a um farol a uma hora incerta. diz o pedro (que teve dificuldade em dormir) que um polícia rondou o carro, mas não nos quis acordar. shukran, senhor agente, shukran!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

jour #12 lá... em lalla fatna


lalla fatna... duas palavras a repetir como um mantra, a proferir como uma pequena oração numa qualquer noite europeia cinzenta e chuvosa. lalla fatna. enfim... se calhar estamos a exagerar um bocado, mas foi um dia mesmo bom.
é curioso ver o efeito que a luz do sol tem sobre os nossos olhos. a praia que na noite anterior nos pediu reserva, pelos seus vultos desconhecidos e sem rosto visível, revelou-se uma pequena pérola. não por ser de uma beleza natural fora de série (a costa portuguesa, em especial o sudoeste, bate lalla fatna aos pontos), mas pela componente humana.
o bar a que chegáramos de noite pertencia efetivamente à association de surf et bodybord de safi (asbs). as pessoas com que faláramos na praia e que dormiram na tenda ao pé de nós pertenciam à associação, praticamente viviam ali na praia. encontrámos uma turminha do surf marroquina! yassime, sallam (nadador-salvador que apareceu de manhã), o presidente da associação, e mais outros... e ainda artur, francês a ficar por marrocos um ano, surfando, ou nádia, uma surfergirl marroquina com uma bela juba de caracóis. não podíamos ter sido melhor acolhidos. de forma simples, partilhámos o dia. o pedro fez-se ao mar para uma manhã de surf. comemos uma grande tajine em conjunto (só batatas, cenouras e pão para alguns). jogámos peteca e vólei de praia. nadámos. um belo dia.
a meio da tarde, depois das despedidas, seguimos para norte. parámos numa pequena terreola para fazer um furo no metal da peça que compráramos para a OphéliA (não sendo peça original, precisava de um desenrascanço). passámos por uma laguna. passámos por campos de legumes e por salinas de beira-mar. acabámos por parar numa praia para o pôr-do-sol. não era deslumbrante, havia algum lixo no areal. vários miúdos brincavam solitários por lá, havia tendas de pescadores, com a aparência de lá estarem a passar uma temporada. alguns homens dentro de água pescavam à linha, indiferentes ao vento. um monte de algas acumulava-se junto à linha da água. e ainda assim foi neste cenário, não exatamente idílico, que nos sentámos na areia a ver o sol cair no mar. silenciosos. os quatro imersos nos seus pensamentos e sensações. sem necessidade ou vontade de falar.
ainda seguimos até el-jadida (antiga mazagão portuguesa), onde jantámos e fomos dormir, sem mais.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

jour #11 where are you going dude? to the beach man, to the beach...


dia de costa, palmilhando a estrada r301, que liga essaouira a el-jadida. agora sim em registo surftrip.
levantámo-nos cedo e, após sujarmos de novo as mãos com a peça partida na OphéliA, arrancámos pela estrada à beira mar. praias enormes, rocha, paisagem árida, poucas árvores, poucas casas. aldeias de pescadores. começam-se a ver surfistas (poucos), estrangeiros e marroquinos. é curioso que vemos mais dromedários aqui do que no interior. paramos numa praia de pescadores, que formava uma enseada natural protegida por rochas no mar, com muitos barcos, algumas casas e pessoas. é a altura da prancha e do pedro se fazerem à água. uma estreia. por aqui almoçamos, numa esplanada/tenda improvisada mesmo junto ao mar junto a um boteco. não se fala francês, fazemo-nos entender por desenhos e gestos. deparamo-nos com uma nova forma de negociar marroquina: é-nos dado um preço, no caso cinco dirhams, pagamos com uma moeda maior, é-nos negado o troco, entre gestos de "está certo". fazem-nos isto no sítio onde comemos e novamente onde compramos algo para cozinhar para o jantar.
seguimos para norte. tentamos parar para o pôr-do-sol junto ao mar, mas não chegamos a dar com o caminho para a praia. jogamos à peteca. seguimos caminho já de noite. atravessamos safi e o seu complexo químico-industrial. às escuras e às alpapadelas, damos com uma praia, já passaria das 21:30. à chegada vemos uma casa de janelas abertas, de onde saía a luz de velas. na penumbra, um homem explica-nos que se trata de um café, que está aberto, mas que não dispõe de energia elétrica (a pergunta se tem wifi é bastante fora de contexto). de dentro do bar, um outro homem, bêbado, insulta-nos em italiano. descemos à praia. enquanto descemos a escadaria para a praia o tiago exclama: "nunca mais bebo! os bêbados são tão chatos!". rimos. mais um episódio de excesso de álcool marroquino. no entretanto, percebemos que o sítio é perfeito para dormir, mesmo com o forte barulho das ondas do mar. notamos que já há duas tendas montadas e acabamos por ser abordados por três vultos, aos quais não conseguimos ver bem a cara, que referem ser de uma associação de surf de safi. tecnicamente não podemos acampar ali, mas por uma noite é ok. convidam-nos a montar tenda ao pé da deles. preparamos o jantar. o bêbado dá-se ao trabalho de descer a escadaria e andar uns bons metros até ao pé de nós para pedir tabaco. ignoramos total e deliberadamente. lá se farta, profere mais uns insultos e volta a subir a escadaria para o café, cambaleando.
assistimos ao pôr-da-lua no mar. a lua vai-se tornando mais avermelhada enquanto desce e o momento é bonito. adormecemos na tenda.

jour #10 a banhos em mogador


pese embora o cheiro à primeira southwestrip que tivéramos na véspera (praias vazias e paisagens naturais agrestes), este foi um dia de estância balnear e de cidade (nada a ver portanto). não que nos tenha sabido mal. bem pelo contrário. depois de tanta milha pelas montanhas a bordo da OphéliA, soube bem pôr os pés de molho na praia, sem pensar em mais nada (nem na prancha).
foi também dia de passear por essaouira (mogador, nos tempos em que era portuguesa), uma das mais tranquilas cidades marroquinas que encontrámos. as ruas, mantendo-se estreitas, pareciam ter mais luz, talvez pelas cores claras dos edifícios. o comércio, sempre presente, era menos intrusivo e parecia até ser mais ao gosto europeu.
a cidade, considerada cidade de artistas, possui uma tradição de diversidade cultural interessante. fundada pelos portugueses em 1506, caiu sob poder marroquino apenas quatro anos depois. goradas as tentativas de conquista por várias potências europeias durante o século xvi, essaouira acabaria por se tornar um dos principais portos de marrocos, virado para o comércio com a europa. judeus marroquinos foram incentivados a instalarem-se na cidade, em particular no século xviii, na altura da reconfiguração urbanística do sultão mohammed iii. comerciantes e diplomatas europeus também aqui se instalaram, gozando de liberdade de culto. entre os edifícios da cidade contam-se mesquitas, antigas sinagogas e igrejas (em funcionamento). os consulados europeus fecharam há muito, os comerciantes estrangeiros viraram agulhas para outros portos e os judeus saíram praticamente todos da cidade, rumo a israel (a última grande leva após a guerra dos seis dias, em 1967), mas o espírito de diversidade manteve-se, e essaouira foi considerada uma meca do movimento hippie nos anos 70 (estávamos em casa portanto...).
depois da praia, e impregnados da indolência que o mar provoca, houve lugar a café e a compras de víveres ao mercado. procurando retribuir a simpatia das senhoras do nosso hotel (essencialmente, duas irmãs e a criança de uma delas), oferecemo-nos para lhes fazer o jantar. imbuídos de um espírito hippie, algo naïf viríamos a perceber, convidámos também jimi chaplin, o middle man da noite anterior que nos guiara até ao hotel e que quisera muito fazer algo connosco. reality check: elas não o deixaram jantar no hotel. continuaram a ser muito simpáticas, mas a posição era inalterável, não podia. não aprofundámos o porquê. gerou-se uma curiosa dança: nós preparando o jantar, jimi aparecia, dizia que voltaria mais tarde para se combinar fazer alguma coisa, ia, voltava, jantar ainda não pronto. não era apenas um jantar que se estava ali a cozinhar. ele queria muito que fossemos com ele ouvi-lo tocar e beber um chá. ou mais qualquer coisa. perguntou-nos se não queríamos um vinho ou uma cerveja. cansados da viagem e da praia, o interesse nessa opção era reduzido, o chá parecia mil vezes melhor. ele estava insistente, nós com pouca disponibilidade e com o jantar atrasadíssimo. perguntou-nos se não lhe dávamos dinheiro para uma cerveja para ele. levou cinco dirhams e lá se foi embora.
entretanto lá acabámos de confeccionar o jantar: sopa de tomate com ovo escalfado, alho francês à brás, espinafres em molho bechamel com pão torrado no forno, salada de alface e tomate, leite creme para a sobremesa. cozinha portuguesa típica, carne e peixe deixados à porta. cansados (já passava das dez da noite), jantámos e tentámos conviver um pouco. percebemos o mistério da ausência de homens: estavam a trabalhar na alemanha, mas vinham frequentemente a essaouira.
acabámos o jantar. jimi chaplin novamente à porta. mais indignado agora com a anterior recusa para participar no jantar, novamente insistente em que fossemos tomar chá a casa dele ("a coisa mais importante no mundo"), cerveja bem assente no bucho. e ora aí estava, quase sem darmos por ela... depois das peripécias no casamento no rif, nova experiência a misturar marroquinos e álcool. muito cansados e indispostos com a insistência, não íamos alinhar. jimi manteve-se à porta. voltaria a bater. perguntaria, indignado, porque não podia estar com os seus amigos. já não sabíamos o que fazer. valeu a irmã mais nova (a que tinha uma bebé de colo). fechou-lhe a porta e ainda foi à janela do primeiro andar dizer-lhe, num árabe que para nós foi cristalino, que se ele continuasse ali chamava a polícia. não há nada como mulheres de ação. em qualquer parte do mundo.

domingo, 7 de setembro de 2014

jour #9 en route (marrakech-essaouira)


dia de deslocação. acordámos pelas dez e meia, já levava o sol alguma altura, protegidos do calor por uma manta estrategicamente colocada na noite anterior, virada a este. à falta de pequeno-almoço no hotel, arrastámo-nos até ao terraço do hotel do lado. os pequenos-almoços marroquinos reanimam uma pessoa. o final da manhã foi dividido entre compras na medina e desarranjos ventrais de um dos elementos do grupo, no hotel. ao longo da viagem, estes desarranjos, que começaram a dar sinal por esta altura, dividir-se-iam ao jeito da divisão clássica do egipto: entre alto ventre (cólicas de estômago) e baixo ventre (intestinos). embora num grau tolerável, todos fomos de um modo ou de outro afetados, com uma exceção: o tiago. se dúvidas houvesse quanto ao mais marroquino dos elementos do grupo, estavam desfeitas. aliás, quando ele vestia o sobretudo marroquino comprado em segunda mão em chefchaouen, ficava indistinguível (ver foto).


lá saímos para essaouira. a paisagem revelava-se agora plana e agreste, com grandes extensões quase sem arbustos. almoçámos  à beira da estrada, ladeados de um casal português (a viajar de mota), um casal italiano e uma numerosa família marroquina. prosseguimos, até finalmente vermos o mar. o sol caía rapidamente quando entrámos em essaouira, a portuguesa mogador. pequena operação stop à entrada da cidade, percalço não suficiente para nos impedir de chegar a tempo do pôr-do-sol na praia, com o sol a cair direto sobre o mar. sentimos a viagem a virar, para algo mais ao jeito da primeira southwest na costa vincentina. entrámos nas muralhas da cidade já era noite. enquanto nos tentávamos orientar para um dos hotéis bon marché do guia, fomos abordados por um senhor marroquino com talvez perto de 50 anos, de criança ao colo, que se predispôs a ajudar-nos a encontrar o hotel que pretendíamos ou, estando esse cheio, outro. lá seguimos com ele, jimi chaplin de seu nome (ou pelo menos assim se apresentou), tocador de baixo. acabámos por encontrar um hotel, maison des couleurs, barato, com um acolhimento simpático e com uma decoração muito engraçada (muitas cores, móveis retro). lá assentámos arraiais. agradecemos ao jimi, com alguns dirhams, bem entendido. pousámos as coisas e fomos jantar. com apetite e com gosto. rebolámos de volta ao hotel e adormecemos.

jour #8 marrakech


acordados pelo sol no terraço, engonhámos um pouco no hotel e seguimos para a rua para tomar um pequeno-almoço puzzle: bolos num café, sumo de laranja numa banca da praça (n.° 17), café no le bon brioche. já era perto do fim da manhã e, à semelhança do que acontecera em fès, divergimos o programa em dois. fiquei no café, a pôr a escrita em dia (não o saberia dizer conscientemente na altura, mas é mais imediato o gesto de escrever estando ainda em viagem do que depois, de volta às velhas rotinas). o resto da malta fez-se à rua e a dois belos programas: a ida ao jardim majorelle e a busca pela peça que se partira na OphéliA. esta busca foi toda ela uma experiência, que talvez o tiago queira narrar na primeira pessoa: andar à pendura de mota com um mecânico marroquino, nos subúrbios de marrakech (não os vi, mas de fora pareciam algo do género khénifra), por cinco lojas, até encontrar a peça que deveria encaixar lá na barra estabilizadora da OphéliA. no entretanto, eu estava no café, actualizando posts do blog e vendo as pessoas a passar na rua em frente, ao abrigo das várias tentativas de relacionamento comercial inevitáveis nas cidades turísticas marroquinas. não ia procurar ver nada em marrakech. estava decidido. enquanto por ali estava, e sem me aperceber disso na altura, acabei por assumir a posição do pescador à linha: lançado o isco à água, ele por lá fica, aguarda que algo apareça. como as marés, o café encheu para o almoço e vazou durante a tarde. lá mais perto das cinco da tarde, um momento de interação espontâneo. começa com a conversa de uma senhora espanhola, que veio encher o cantil, com o empregado de mesa marroquino, puxa outro espanhol que estava na mesa ao lado a almoçar e, logo depois, a mim também. éramos as únicas pessoas na esplanada. tratavam-se de uma espécie de viajantes que merecem admiração: o viajante solitário. ele, um rapaz de cerca de 30 anos de barcelona, estava a percorrer a cordilheira do atlas em bicicleta durante um mês. ia em breve atacar o ponto mais alto, quatro mil metros, algures a sul de marrakech. tinha uma ocupação profissional curiosa: trabalhava numa empresa que processa os dados dos incumpridores da via do infante, ex autoestrada sem custos para o utilizador no algarve. contou que no início da implementação das portagens viram um pouco de tudo: pórticos destruídos, armas apontadas às câmaras... a senhora, que entretanto se sentou para um café, não deveria ter ainda sessenta. era uma espanhola de burgos e contrastava com o rapaz: onde ele era moreno, como que com raízes mouras, ela era de pele clara e olho azul. vivia na argentina há 25 anos, tinha sido aeromoça, agora dava aulas de tango. viajava muito e sozinha. contou que o ano passado tinha estado no egipto, na altura do derrube de morsi, o presidente egípcio. não se sentira insegura (tivera o cuidado de se afastar de sítios onde houvesse mais confusão), mas descreveu um momento em que se sentiu perdida, rodeada de pessoas que não falavam inglês, sem se conseguir orientar para o hotel. as viagens testam-nos. falámos um pouco da argentina. crise económica, default, insegurança a aumentar. aparentemente os cartéis de droga outrora instalados na colômbia deslocalizaram as suas sedes para a argentina, aumentando os problemas: criminalidade, corrupção... fora do café, entretanto, chovia. aquela chuva com sol que acontece por vezes ao fim da tarde, quando as nuvens estão altas. despedimo-nos e seguiu cada um o seu caminho.
voltei para o hotel e para a malta. era tempo de os três rapazes seguirem para o hammam. toda uma experiência, que justificará um post hors-piste. bem relaxados, jantámos num muito bom vegetariano ali perto, o earth café, e arrastámo-nos indolentes para o hotel, adormecendo novamente no terraço.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

jour #7: o dia mais curto


a vida tende para um equilíbrio. depois de um dia longo, muito longo, era inevitável um dia curto. acordámos pelas três e meia da tarde, a tempo de dizer que não ficaríamos outra noite. o pequeno-almoço foi um momento importante para sintonizar o grupo e podermos seguir leves, com o dia anterior bem digerido.
ainda fomos espreitar as cascatas e ver as vistas. as cascatas eram bonitas, mas as lojas e tendas no caminho, com alguma sujidade associada, pesavam um pouco a vista. do miradouro conseguimos perceber o encanto que este sítio pode ter para um viajante: pequenos trilhos pelas serras avermelhadas. não seriam percorridos por nós: o motor da OphéliA pedia estrada e marrakech. saímos pelas seis e meia, bastante bem dispostos, tocando e cantando ao longo do caminho.
parámos ao pôr-do-sol para um jogo de peteca à beira da estrada, que deu direito a uma conversa com um marroquino emigrado em itália há dez anos. a conversa fluiu em italiano, o que nos surpreendeu, e ficámos a saber que tinha casado há dois anos com uma mulher de marrocos, a viver aqui. ficámos a magicar como teria ele conhecido a mulher, de cá, estando lá... o nosso guia explicava que os hammams femininos jogam um papel importante na escolha das noivas: a mãe do homem pode avaliar a futura esposa sem as condicionantes de vestuário que são bastante evidentes na sociedade marroquina, em particular nos meios pequenos e de interior (vestidos completos e largos, cabelos escondidos). teria sido assim? teria havido intervenção de outro tipo da mãe dele? um encontro num querido mês de agosto anterior? haveria facebook envolvido? ficámos sem saber. tinham uma filha pequena.
seguimos a rota para marrakech, já com a noite sobre nós, onde chegámos pelas dez e meia. encontrámos lugar para a OphéliA dentro das muralhas, e repetimos um hotel já conhecido do tiago, o hotel medina, onde nos instalámos. uma volta até à praça jemal el-fna para jantar, acompanhado dos inevitáveis sumos de laranja, e para ver a animação noturna da praça. adormecemos no terraço do hotel. era perto da uma.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

jour #6 o dia mais longo


acordámos no pinhal junto ao lago meio seco onde estacionáramos a OphéliA no dia anterior. uma boa luz matinal, pequeno-almoço, e seguir viagem: ifrane, depois azrou. zona de residências de férias, designadamente do rei, e estâncias de ski. nada de neves por esta altura do ano, mas muitos cedros. as florestas de cedros são sítios agradáveis no verão, frescas e com um bom aroma, como constatámos ao parar junto ao famoso cedro gouraud, um gigantesco cabide de madeira (o cedro está morto há alguns anos, só resta o esqueleto). na floresta tivemos o primeiro contacto com os macacos marroquinos.
continuámos a estrada, parando para almoçar em ain-leuh. a aparência do sítio era suja, de pequena terreola de montanha, a comida, frita e servida contra todas as indicações higiénicas, era boa. destaque aos figos-pita: deliciosos. matrecada e seguir viagem pela estrada de montanha. chegaríamos às fontes de l'oum-er-rbia pelo fim da tarde. o cenário é deslumbrante: rocha vermelha, escavada pela água em alguns pontos, vários pequenos cursos de água descendo a encosta e muitos abrigos, alguns sendo pontos de venda, outros sítios para comer e para dormir. mais de quarenta fontes nascem aqui, sete delas salgadas, particularidade estranha (estamos a mais de 250 km do mar), explicada pela existência de minas de sal nas imediações. enquanto bebemos o enésimo sumo de laranja, com o sol de fim de tarde a cair nas montanhas, sinto vontade de ficar, gozando o sítio. a longa distância até marrakech e ao mar empurram o grupo para seguir, o que é compreensível e pacífico. seguimos. à medida que percorremos a estrada e a noite vai caindo, escura, o calor abafado e húmido conduz-nos em direção a uma trovoada de verão. primeiro vemos os clarões ao fundo, depois vem a chuva. quando entramos em khénifra chove generosamente e podemos ver os vendedores, excepto os de fruta, cobrindo as bancas expostas ao tempo. sentamo-nos num café para nos orientarmos com o sítio. khénifra apresenta-se como uma cidade confusa, no registo loja aberta à rua a cada metro, com muitas pessoas na rua, carros, motas, carrinhos de mão e burros. ainda antes de conseguirmos estacionar, uma senhora de longo vestido e bebé ao colo, circulando na estrada, fica com o vestido preso ao espelho lateral da OphéliA. sem consequências, mas com direito a protestos da família toda, bebé incluído. talvez pela hora escura a que chegamos, khénifra parece suja e feia, como imaginaríamos uma cidade secundária no paquistão ou na índia. o plano imediato é jantar, o que fazemos num boteco na rua estreita onde estacionámos o carro. é o momento de acertar agulhas. exponho a minha opinião: quero ficar. não é bonito como as cascatas, mas é necessário parar, repor baterias e seguir no dia seguinte. evitar que a viagem se torne uma sucessão de passagens por sítios que se confundem na mente por estarmos em piloto automático. são dez da noite. em lisboa tínhamos falado em jokers. cada um dos elementos do grupo disporia de um, ao jogá-lo podia condicionar a direção do grupo. só se podia usar uma vez. estava disposto a jogar o meu joker num sítio tão feio como khénifra. a vontade do resto do grupo era seguir, rumo a sítios mais bonitos e à costa, sem perder tempo, pois o percurso khénifra - marrakech nada tinha que ver e podia bem ser feito de noite, para ganhar tempo. face a tal demonstração de vontade e ao restabelecimento resultante do jantar, o joker ficaria na carteira. bebemos um café com leite, que nos deu mais sono que outra coisa, entrámos para a OphéliA e seguimos. eram onze da noite. não devemos ter andado 200 metros quando um barulho na suspensão, junto à roda direita, nos fez parar. a volta noturna pelos lagos, na véspera, implicara a passagem por uma estrada de terra particularmente má, com direito a um daqueles "pim!" no chassis que assustam. pusémo-nos de cócoras a analisar: um parafuso tinha-se partido e saído, havia um tubo metálico meio solto. iniciaram-se reparações à beira do passeio, que terminam perto da uma da manhã. a OphéliA estava apta a seguir viagem, embora fosse aconselhável ver um mecânico, para se substituir a peça onde se partira o parafuso, onde faltava também uma borracha. parecia que a OphéliA estava a jogar o seu joker. ficamos? vamos dar uma volta para testar o arranjo do carro, que respondeu bem. ficamos? estamos prontos para seguir. já não consegui bater o pé. ruminaria interiormente a irritação daí resultante ao longo da noite, mas o rumo estava traçado. saímos de khénifra à uma da manhã, direção marrakech (que distava mais de 400 km), sob a escuridão da lua nova, com ideias de dormir num bonito turismo rural algures no caminho. algures a meio do caminho lá desfizemos a ideia de ir bater à porta de um turismo rural às três da manhã. melhor em beni-mellal, cidade grande, aconselhou-nos um polícia numa operação stop. ao longo da viagem descobríramos que os médios da OphéliA estavam calibrados acima do normal, pelo que a grande parte dos carros em sentido contrário nos espetavam com os máximos. virou jogo: "vamos indispor um marroquino!", rubrica radiofónica de escuta exclusiva na OphéliA. beni-mellal, às quatro da madrugada, tocando campainhas e batendo a lindas portas de hotel que permaneceram fechadas e indiferentes aos quatro viajantes. apenas uma coisa a fazer: estrada. no banco de trás da OphéliA tocava-se viola. mais à frente, uma escolha: marrakech (120 km) ou cascatas de ouzoud (mais perto). seguimos para as cascatas. sob a lua nova, perdemo-nos em estradas de mau piso. quase atropelamos um pequeno burro, valendo no caso os reflexos do pedro, notáveis às sete da manhã. chegamos às cascatas passam das oito da manhã. ainda temos forças para percorrer as ruelas de lojas até à base da cascate, subir, escolher entre dois lugares para dormir e finalmente, depois de um banho frio, cair na cama. eram nove horas. acabara o dia.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

jour #5 homeostase em fès (a personal view)


decidi tresmalhar. depois do pequeno-almoço conjunto no hotel cascade, o meu rumo não acompanharia o do resto do grupo: eles seguiriam pelas ruas estreitas de fès em busca das tanoarias e eu ficaria no hotel, ainda com o gosto dos dias anteriores, escrevinhando. soube bem parar o fluxo de novas vivências e sensações e simplesmente estar.
pelas quinze horas, com a boa disposição de que se sintonizou consigo, fiz-me à rua e à medina. ruas estreitas, repletas de lojas. tudo se vende e parece que toda a gente vende algo. é preciso algum calo para se perceber como as coisas funcionam e desenrascar-se bem: os vendedores marroquinos anseiam por encetar uma relação comercial e forçam um pouco a interação. um mero olhar a um produto pode desencadear um processo no qual podemos não estar interessados. às vezes nem isso. topada a pinta de turista começa-se a ouvir "êh amigo..." e a inevitável pergunta de onde vimos. em respondendo somos contemplados com algumas palavras em português e, sem darmos por ela, há uma potencial compra em perspetiva. a pergunta pela nacionalidade não é inocente: cientes da proveniência, ajustam-se os preços ao respectivo poder de compra. neste caso, não convém ser americano. português é ok, estamos falidos dizem.
sem bateria no telemóvel, logo sem fotos, contactos com o resto do grupo ou mesmo noção das horas, fiz caminho em direção às tanoarias, fazendo o meu melhor por ignorar os apelos às compras. ainda perto do hotel era possível entrar na medersa bou inania, uma escola construída no século xiv. é interessante perceber a urbanística da medina: ruas estreitas, confusas e repletas de pessoas podem dar lugar a edifícios com pátios tranquilos. no caso da medersa essa tranquilidade, um silêncio próprio de espaços religiosos, era particularmente intensa, contrastando com a agitação da rua. prossegui em direção às tanoarias, procurando fixar referências visuais que permitissem um regresso tranquilo. andei, andei, para lá da mesquita andaluza, mas as tanoarias não se deixariam encontrar. ficariam nos olhos do resto do grupo e nas fotos do pedro.
foi muito bom reencontrar o resto da malta no hotel. preparámos a tralha e seguimos para a OphéliA, rumo a sul, direção ifrane. abastecidos de jantar numa terreola no caminho, acabámos por fazer uma volta noturna, sob a lua nova, numa área de lagos. após alguma procura, montámos tenda à beira do dayet (lago) aoun, jantámos, tocámos viola e adormecemos.

sábado, 30 de agosto de 2014

jour #4 de volta ao caminho: algures no rif - fès


acordámos como que de um sonho, algures a meio da manhã, na casa que nos acolheu e onde, horas antes, um pequeno mar de gente, incluindo nós, festejara o casamento. numa divisão contígua, um senhor de idade e dois jovens dormiam, como nós dormimos, em pequenos colchões rente ao chão. saindo para o pátio interior da casa, algumas crianças a brincar e mulheres em tarefas caseiras. fora da casa, o casamento literalmente esfumara-se: já não havia tenda sob a qual nos sentáramos a ouvir a música árabe amplificada por grandes e ensurdecedoras colunas, nem mesa onde se sentara o noivo enquanto recebia dons em dinheiro, as cadeiras de plástico branco tinham sido praticamente todas recolhidas ou empilhadas a um canto. e a massa humana, noivo, convidados e músicos, desaparecera. foi-nos dito que zahir, o professor de biologia que nos servira de âncora durante a noite e nos indicara o quarto onde dormimos, tinha saído para caçar javalis. fez as honras o sobrinho. rapidamente o nosso quarto ganhou uma mesa de altura adequada às camas, agora tornadas assentos. sobre ela, o típico pequeno-almoço marroquino: pão redondo e estreito, mel, azeite, manteiga, sumo de laranja e café. a conversa desenrolou-se agradavelmente, preguiçosa e bem-disposta. por momentos julgámos perceber que o nosso anfitrião do pequeno-almoço pretendia uma boleia até fès, perto de onde morava, mas não. só voltaria para lá em outubro e convidou-nos a irmos visitá-lo nessa altura. trocaram-se contactos e recebemos figos maduros para a viagem. era tempo de agradecer e partir.
seguimos o percurso inesperadamente interrompido, direção mokrissèt, onde chegámos com facilidade. aí encontrámos uma feira de aldeia, com tendas dispostas ao longo de um descampado, na qual nos decidimos perder um pouco. surpresa: um dos músicos da noite anterior surge-nos ao caminho. uma pequena festa.
abastecidos de água de fonte e uvas prosseguimos viagem, com destino à barragem de al-wahda, que nos escapara na véspera. demos com ela e com o azul da sua albufeira, mais claro que o de chefchaouen, mas tão ou mais deslumbrante. contemplávamos a vista, encostados a um muro de meia altura que nos impedia de aceder a esta enorme e apelativa massa de água em baixo, quando vemos vir na nossa direção, vindo de perto da água, um homem grande e de pele clara, barba farfalhuda e de cabeça rapada, de calças militares e camisa de alças, com alguma barriga. estava visivelmente cansado da subida. oferecemos-lhe figos. declinou. em francês, explicou-nos que o sítio em que nos encontrávamos era interdito a não marroquinos, que havia equipamento militar e não podíamos tirar fotos. olhámos em redor. na terra amarela dourada que descia até ao azul da albufeira podia ver-se, mais sobre a esquerda, uma tenda militar ladeada de um camião. mais à direita e ao fundo, a parelha repetia-se. ficámos sem perceber a que equipamento militar ele se referia. depois do tiago lhe ter afiançado que não tiráramos fotografias (informação incorreta, como verão no próximo post de fotos, mas que o Tiago desconhecia), perguntámos o de nos poderíamos banhar. apontou-nos para jusante da albufeira. agradecemos e prosseguimos. junto a uma ponte e na companhia de vários marroquinos, pusemos as rodas da OphéliA na água e tomámos o nosso banho de rio.
chegámos a fès ao fim da tarde, ainda com luz natural. estacionámos, negociámos o preço do lugar com o gardien e bebemos um chá de menta. facilmente demos com o hotel cascade, à entrada da medina, junto à porta bab boujeloud, onde jantámos e adormecemos no terraço, embalados pela noite quente.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

jour #3 perdus au rif, trouvés au mariage...



despertámos docemente em chefchaouen, tranquilos e frescos, abrigados do calor pela construção marroquina tingida de azul. os sumos de laranja, os cafés, o pão, o doce, o mel, a manteiga, o azeite... estávamos prontos para uma volta pela cidade, rumo às cascatas que por ela passam, onde se toma banho e se lava a roupa. aqueles que a construíram escolheram bem este sítio. não falta nada. nem o efeito cénico das montanhas que crescem, escarpadas e aparentemente inacessíveis, protegendo a sua face norte dos invasores, inicialmente portugueses.
saímos de chefchaouen antes de almoçar. eram as duas da tarde. dirigimo-nos a bab-taza por uma estrada vermelha (no mapa), com ideias de apanhar outra estrada, branca e depois branca tracejada. para além das autoestradas (vermelhas e amarelas, como a bandeira de espanha), o nosso mapa assinala também as estradas principais (vermelhas), as estradas secundarias (amarelas) e as estradas asfaltadas (brancas). abaixo destas, as não asfaltadas acessíveis todo o ano (brancas, com um dos riscos a picotado) e as não asfaltadas à viabilité incertaine par temps de pluie (brancas, com um dos riscos a tracejado). no fim da legenda, um mero risco tracejado indica "sentier/chemins muletier". confiantes no tempo quente, seguimos.
bab-taza é uma pequena terreola, com muitos restaurantes em torno de uma rotunda exposta ao sol e ao calor. abundam edifícios aos quais custa chamar típicos, mas cuja frequência ao longo da estrada que até aqui nos trouxe, a tal obriga: pequenos caixotes de tijolo e betão, de dois ou três andares, a mais das vezes desermanados (isto é, sós e com terreno à volta) e crus, com o tijolo e o betão expostos ao sol. por vezes, no topo destas casas sem telhado crescem varetas de aço, como cabelos hirsutos escassos numa superfície calva, sonhando em elevar a casa e a sua gente mais uns metros acima do solo. um olho sensível gritaria "crime!", mas os olhos da alma conseguem ver a beleza dos braços que construíram estas casas, porque queriam, porque precisavam, porque sabiam e podiam fazê-lo com os materiais que acharam adequados. testemunhos de uma liberdade e de uma capacidade preservadas de licenças, autorizações e coimas.
em bab-taza encontrámos um simpático cicerone que vendia cigarros à unidade e que nos orientou na confusão da rotunda até um repasto vegetariano e a sardinhas do mediterrâneo (mais saborosas, afiançou) para a metade não veggie da OphéliA. "so, you are a vegetable man...". é isso é... ana nabati, ana nabati...
seguimos pela estrada branca, r419, tendo na ideia chegar à barragem de al wahda, contorná-la por este, e de alguma forma seguir para sul, chegando a fez. não seria assim. nesta altura seguíamos pela estrada que, a julgar pelas placas, era a certa, com as janelas da OphéliA abertas. em breve, enquanto percorríamos as estradas de montanha do rif, começámos a observar extensas plantações de kif (cannabis), que floresciam ali mesmo à beira da estrada, lançando um característico odor pelo ar. uma vista de olhos ao guia elucidou-nos: marrocos é o segundo produtor mundial de cannabis, a seguir ao afeganistão. deixámos-nos ir, acenando simpaticamente às pessoas à beira da estrada. em breve a estrada foi ficando mais íngreme, mais estreita, e o tracejado da estrada no mapa começou a tornar-se real sob os nossos olhos: o asfalto da estrada começou a recortar-se e a encolher-se nas bermas, estreitando a via. de dois carros passou a poder circular um e em breve menos. em alguns pontos os asfalto não teria mais de quinze centímetros e, em breve, o asfalto começou a alternar com a terra batida. tudo em cenário de montanha, entre plantações de kif entre as quais se viam por vezes tendas, por vezes pessoas circulando ou sentadas, algumas sentadas dentro de largos mercedes calejados pela serra. vigilantes? a curiosidade foi vencida pelo respeito e a ideia de fotografar a OphéliA no meio de uma plantação foi descartada, por unanimidade. estaríamos na estrada certa? debatíamo-nos com esta questão quando finalmente nos deparámos com uma terra desconhecida, apenas com placas em árabe. seguramente estávamos bem. parámos num café, entre marroquinos a jogar às cartas e a fumar kif nos característicos cachimbos finos. dois cafés au lait, dois batidos de pêra abacate, baralho de cartas na mesa e tempo de lazer: jogámos uma suecada. retomámos a estrada, apenas para pararmos alguns metros depois, numa bifurcação. placas em árabe, dúvidas e finalmente um ponto de luz: um guarda marroquino em uniforme caqui. onde estamos? fifi. hmm? fifi. olhámos o mapa. fifi não aparecia, mas conseguimos perceber que tomáramos uma estrada branca que a certo ponto, no mapa, deixava de existir. estávamos fora do mapa (escala 1/1.000.000), algures entre bab-taza e mokrissèt. declinada a opção voltar a bab-taza para apanhar a estrada vermelha, restava seguir em frente, pela estrada de montanha não indicada no mapa. "voiture?" perguntou o guarda subindo e baixando a mão, de palma para baixo, indicando os solavancos da estrada. sim. havia dúvidas?
começámos caminho com o sol a descer entre as montanhas. subindo. deixámos de ver plantações. menos pessoas e casas à beira da estrada. a certo ponto, bem no alto a OphéliA não pode prosseguir. há um ajuntamento de pessoas na estrada, música de flautas e tambores, dois burros: um com uma espécie de tenda branca fechada, da qual saíam dois pés, outro com alguém montado, de capuz, rodeado por bandeiras empunhadas por homens entoando cânticos. aterráramos num casamento marroquino. já não seguiríamos mais viagem: esta noite seria de festa.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

jour #2 looking ahead


amanhecemos em tarifa, uns na barriga acolhedora da OphéliA, outros sob o tecido protetor da tenda. descemos do ponto alto e ventoso onde nos instaláramos na véspera, no breu de uma noite sem lua. mesmo a tempo do ferrie. entrámos em marrocos ainda não eram 11. eis-nos chegados ao início da viagem. tanger foi uma paragem curta. chás de menta para uns, sumos de laranja para outros e pouco mais. havia caminho a fazer. direção chefchaouen, pelas estradas de montanha do rif. OphéliA dona e senhora da estrada.

chefchaouen ao fim da tarde, explorando as ruas estreitas, os azuis, os sons, novos cheiros... e adormecer entre as paredes caiadas de azul.

domingo, 24 de agosto de 2014

jour #1 and i will walk 500 miles...


a partida ao nascer do sol arrastou-se até mais ao fim da manhã, a bem de mais umas horas de sono. lá arrancámos, com ideias de dormir com vista para marrocos. e assim foi. atravessámos o alentejo ensolarado e a espanha noturna, chegando finalmente a tarifa, o ponto do salto para marrocos, já a noite ia alta. dispensámos a movida noturna tarifeña e dormimos como pudémos, uns na OphéliA, outros em tenda, sob um forte vento. o destino estava ao alcance da vista.

sábado, 23 de agosto de 2014

jour #0 minuit chez pedro


dia 0: últimos preparativos, compras, apliques na OphéliA... e meia noite em casa do pedro. chegaram os 30's! a noite escorreu @ the sound of music (when you're 30), entre mambos e guitarradas. quem tem mel, quem tem??

ps- o sonho era partir no dia seguinte ao nascer do sol... será?

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

jour #-1


está quase... quase quase... =)

levámos a OphéliA a um passeio por lisboa (pela lisboa moura...), para ver como respondia aos mimos que lhe foram sendo dados nestes últimos dias (novos faróis, manómetro e, em breve, uma grade de tejadilho para carga). esteve ótima, fosse a subir, a descer ou a travar... all set!

ruas estreitas, escadinhas e recantos... mouraria tem travo a marrocos.