e pronto: acabou-se. lá voltámos a solo pátrio. muitos quilómetros e alguns posts mais velhos. para os pequenos-almoços de meia de leite e torrada, se tanto. para ruas onde ninguém nos tenta vender nada. de regresso a casa.
uma das partes interessantes de viajar é o regresso a casa. com os olhos cheios de uma outra realidade, é possível olhar para o nosso cantinho de vida e vê-lo de modo diferente. muitas vezes por contraste com o que se acabou de ver. pode ser pela positiva ou pela negativa. exemplifiquemos: temos um país muito mais limpo, com muito menos lixo nas praias e nas ruas. mas temos também um país muito menos vivo. sim, o principal contraste, de fundo e não de forma, deve andar por aí, ao nível da vitalidade. em marrakech, um homem com a nossa idade empurra um carro de mão com o qual vende figos pita a um dirham (nove cêntimos) cada um. cá, provavelmente precisaria de uma licença. a asae talvez detetasse uma mão cheia de infrações às regras de higiene. e isto sem entrar pela parte fiscal... bem pesadas as coisas, cá, com aquela idade, era mais bem jogado ir bater à porta da segurança social para um rendimento social de inserção ou um subsídio de desemprego. e ficar por casa. lá, é alguém que presta um serviço procurado e é pago por isso. cá, é um elemento feio na via pública, que importa afastar. o sistema dificulta que se faça pela vida e favorece que se peça para viver. e esta diferença de postura, entre fazer pela vida e pedir que nos dêem para viver, à escala de um país, explica a diferença de vitalidade.
seria curioso saber o que sucederia ao nosso vendedor de figos pita estando em portugal. insistiria na venda, calcorreando as nossas ruas como uma afronta ao estado de direito regulatório? cederia? não saberemos... o raio-x colocado à entrada do ferrie, em tanger, à cata de pessoas como ele que queiram vir para cá, certifica-se que ele não conseguirá entrar.
pois é, não foi por razões de saúde que a OphéliA, aos 27 anos, foi submetida ao seu primeiro raio-x, ali mesmo à beira de embarcar no ferrie rumo à europa. quis-se antes saber se ela estava grávida. bem vistas as coisas, era uma ecografia! não estava.
tudo isto se passou de manhã, bem cedo, logo após acordarmos junto ao farol e rumarmos a tanger. todo o dia seria feito em registo misto, entre o conduzir e o dormir. parámos em sevilha para uma caña, quebrando o jejum etílico de duas semanas (sim, viram-se os efeitos do álcool à nossa volta, mas nós não o vimos a ele...). soube bem. enquanto bebíamos a cerveja, alguém nos aborda pedindo uma ajuda, dinheiro. se ao menos vendesse figos pita... seguimos caminho, entrámos em portugal. estrada nacional 125. sol de fim de tarde. pôr-do-sol no sítio mais improvável: quarteira. comendo com gosto os fantásticos bolos da pastelaria beira mar. na tv, saíam as condenações do caso face oculta. exemplares. alguns dos senhores que passam e executam as leis das ditas licenças e regulamentos aplicáveis ao nosso vendedor de figos pita iam dentro por corrupção.
















