pese embora o cheiro à primeira southwestrip que tivéramos na véspera (praias vazias e paisagens naturais agrestes), este foi um dia de estância balnear e de cidade (nada a ver portanto). não que nos tenha sabido mal. bem pelo contrário. depois de tanta milha pelas montanhas a bordo da OphéliA, soube bem pôr os pés de molho na praia, sem pensar em mais nada (nem na prancha).
foi também dia de passear por essaouira (mogador, nos tempos em que era portuguesa), uma das mais tranquilas cidades marroquinas que encontrámos. as ruas, mantendo-se estreitas, pareciam ter mais luz, talvez pelas cores claras dos edifícios. o comércio, sempre presente, era menos intrusivo e parecia até ser mais ao gosto europeu.
a cidade, considerada cidade de artistas, possui uma tradição de diversidade cultural interessante. fundada pelos portugueses em 1506, caiu sob poder marroquino apenas quatro anos depois. goradas as tentativas de conquista por várias potências europeias durante o século xvi, essaouira acabaria por se tornar um dos principais portos de marrocos, virado para o comércio com a europa. judeus marroquinos foram incentivados a instalarem-se na cidade, em particular no século xviii, na altura da reconfiguração urbanística do sultão mohammed iii. comerciantes e diplomatas europeus também aqui se instalaram, gozando de liberdade de culto. entre os edifícios da cidade contam-se mesquitas, antigas sinagogas e igrejas (em funcionamento). os consulados europeus fecharam há muito, os comerciantes estrangeiros viraram agulhas para outros portos e os judeus saíram praticamente todos da cidade, rumo a israel (a última grande leva após a guerra dos seis dias, em 1967), mas o espírito de diversidade manteve-se, e essaouira foi considerada uma meca do movimento hippie nos anos 70 (estávamos em casa portanto...).
depois da praia, e impregnados da indolência que o mar provoca, houve lugar a café e a compras de víveres ao mercado. procurando retribuir a simpatia das senhoras do nosso hotel (essencialmente, duas irmãs e a criança de uma delas), oferecemo-nos para lhes fazer o jantar. imbuídos de um espírito hippie, algo naïf viríamos a perceber, convidámos também jimi chaplin, o middle man da noite anterior que nos guiara até ao hotel e que quisera muito fazer algo connosco. reality check: elas não o deixaram jantar no hotel. continuaram a ser muito simpáticas, mas a posição era inalterável, não podia. não aprofundámos o porquê. gerou-se uma curiosa dança: nós preparando o jantar, jimi aparecia, dizia que voltaria mais tarde para se combinar fazer alguma coisa, ia, voltava, jantar ainda não pronto. não era apenas um jantar que se estava ali a cozinhar. ele queria muito que fossemos com ele ouvi-lo tocar e beber um chá. ou mais qualquer coisa. perguntou-nos se não queríamos um vinho ou uma cerveja. cansados da viagem e da praia, o interesse nessa opção era reduzido, o chá parecia mil vezes melhor. ele estava insistente, nós com pouca disponibilidade e com o jantar atrasadíssimo. perguntou-nos se não lhe dávamos dinheiro para uma cerveja para ele. levou cinco dirhams e lá se foi embora.
entretanto lá acabámos de confeccionar o jantar: sopa de tomate com ovo escalfado, alho francês à brás, espinafres em molho bechamel com pão torrado no forno, salada de alface e tomate, leite creme para a sobremesa. cozinha portuguesa típica, carne e peixe deixados à porta. cansados (já passava das dez da noite), jantámos e tentámos conviver um pouco. percebemos o mistério da ausência de homens: estavam a trabalhar na alemanha, mas vinham frequentemente a essaouira.
acabámos o jantar. jimi chaplin novamente à porta. mais indignado agora com a anterior recusa para participar no jantar, novamente insistente em que fossemos tomar chá a casa dele ("a coisa mais importante no mundo"), cerveja bem assente no bucho. e ora aí estava, quase sem darmos por ela... depois das peripécias no casamento no rif, nova experiência a misturar marroquinos e álcool. muito cansados e indispostos com a insistência, não íamos alinhar. jimi manteve-se à porta. voltaria a bater. perguntaria, indignado, porque não podia estar com os seus amigos. já não sabíamos o que fazer. valeu a irmã mais nova (a que tinha uma bebé de colo). fechou-lhe a porta e ainda foi à janela do primeiro andar dizer-lhe, num árabe que para nós foi cristalino, que se ele continuasse ali chamava a polícia. não há nada como mulheres de ação. em qualquer parte do mundo.

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