acordados pelo sol no terraço, engonhámos um pouco no hotel e seguimos para a rua para tomar um pequeno-almoço puzzle: bolos num café, sumo de laranja numa banca da praça (n.° 17), café no le bon brioche. já era perto do fim da manhã e, à semelhança do que acontecera em fès, divergimos o programa em dois. fiquei no café, a pôr a escrita em dia (não o saberia dizer conscientemente na altura, mas é mais imediato o gesto de escrever estando ainda em viagem do que depois, de volta às velhas rotinas). o resto da malta fez-se à rua e a dois belos programas: a ida ao jardim majorelle e a busca pela peça que se partira na OphéliA. esta busca foi toda ela uma experiência, que talvez o tiago queira narrar na primeira pessoa: andar à pendura de mota com um mecânico marroquino, nos subúrbios de marrakech (não os vi, mas de fora pareciam algo do género khénifra), por cinco lojas, até encontrar a peça que deveria encaixar lá na barra estabilizadora da OphéliA. no entretanto, eu estava no café, actualizando posts do blog e vendo as pessoas a passar na rua em frente, ao abrigo das várias tentativas de relacionamento comercial inevitáveis nas cidades turísticas marroquinas. não ia procurar ver nada em marrakech. estava decidido. enquanto por ali estava, e sem me aperceber disso na altura, acabei por assumir a posição do pescador à linha: lançado o isco à água, ele por lá fica, aguarda que algo apareça. como as marés, o café encheu para o almoço e vazou durante a tarde. lá mais perto das cinco da tarde, um momento de interação espontâneo. começa com a conversa de uma senhora espanhola, que veio encher o cantil, com o empregado de mesa marroquino, puxa outro espanhol que estava na mesa ao lado a almoçar e, logo depois, a mim também. éramos as únicas pessoas na esplanada. tratavam-se de uma espécie de viajantes que merecem admiração: o viajante solitário. ele, um rapaz de cerca de 30 anos de barcelona, estava a percorrer a cordilheira do atlas em bicicleta durante um mês. ia em breve atacar o ponto mais alto, quatro mil metros, algures a sul de marrakech. tinha uma ocupação profissional curiosa: trabalhava numa empresa que processa os dados dos incumpridores da via do infante, ex autoestrada sem custos para o utilizador no algarve. contou que no início da implementação das portagens viram um pouco de tudo: pórticos destruídos, armas apontadas às câmaras... a senhora, que entretanto se sentou para um café, não deveria ter ainda sessenta. era uma espanhola de burgos e contrastava com o rapaz: onde ele era moreno, como que com raízes mouras, ela era de pele clara e olho azul. vivia na argentina há 25 anos, tinha sido aeromoça, agora dava aulas de tango. viajava muito e sozinha. contou que o ano passado tinha estado no egipto, na altura do derrube de morsi, o presidente egípcio. não se sentira insegura (tivera o cuidado de se afastar de sítios onde houvesse mais confusão), mas descreveu um momento em que se sentiu perdida, rodeada de pessoas que não falavam inglês, sem se conseguir orientar para o hotel. as viagens testam-nos. falámos um pouco da argentina. crise económica, default, insegurança a aumentar. aparentemente os cartéis de droga outrora instalados na colômbia deslocalizaram as suas sedes para a argentina, aumentando os problemas: criminalidade, corrupção... fora do café, entretanto, chovia. aquela chuva com sol que acontece por vezes ao fim da tarde, quando as nuvens estão altas. despedimo-nos e seguiu cada um o seu caminho.
voltei para o hotel e para a malta. era tempo de os três rapazes seguirem para o hammam. toda uma experiência, que justificará um post hors-piste. bem relaxados, jantámos num muito bom vegetariano ali perto, o earth café, e arrastámo-nos indolentes para o hotel, adormecendo novamente no terraço.

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