a pequena turba desceu a encosta, parando junto a uma casa, situada num plano inferior ao da estrada, onde antes víramos de passagem uma grande quantidade de cadeiras de plástico vazias. fizera-se noite entretanto. entrámos numa espécie de pátio com videiras por cima, onde a música continuou e todos dançámos com grande animação.
fomos de seguida conduzidos a uma sala ao lado do pátio, para descansar e jantar. tinham-nos colocado junto com os músicos, praticamente todos de bigode e com uma espécie de turbante na cabeça, que consistia numa tira de tecido amarelado, criteriosamente enrolada. a boa disposição reinava: explicaram-nos como se colocava a tira, riram-se com as nossas barbas (a ana, a única mulher na sala, capitalizou bem esse facto e orientou a conversa com mestria, sugerindo que devíamos fazer a barba...). vai daí, decidimos ir ao carro buscar a viola e dar nós mesmos um momento musical aos músicos. à falta de música tradicional portuguesa e não querendo espetar-lhes com o zé cid a sangue frio (o nosso cancioneiro é muito particular...), optámos pela versão francesa do bambino (ainda não conseguimos agarrar o tema em árabe...), recebida com simpatia e até algum acompanhamento de voz.
chegou o jantar. primeiro, frango com azeitonas. eu e o tiago trocámos olhares. "estamos feitos!". pegámos no pão e malhámos as azeitonas. prato seguinte, borrego assado com ameixas. carrega nas ameixas! tudo sem talheres, evidente...
o momento do jantar coincidiu com uma acalmia da festa. quando acabámos fomos encaminhados para as cadeiras brancas dispostas do lado de fora da casa, aproveitando uma esquina: um lado da esquina para as mulheres, todas de lenço na cabeça (excepto as mais novas) e do outro lado, virado para a encosta que ladeava a casa, os homens. ao meio, virado para os homens, o palco onde um grupo ia atuar, preparado com grandes amplificadores, bateria e espaco para os músicos. nesta altura já tínhamos sido adotados por zahir, um professor de árabe fluente em francês, pertencente à família em cuja casa nos encontrávamos. estava com a mulher e as duas filhas. sentámo-nos do lado dos homens, ana incluída. talvez para não desemparelhar muito a nossa ana, a mulher de zahir sentou-se igualmente na ala masculina, mesclando um pouco aquilo que, de outro modo, seria uma perfeita divisão homens-mulheres.
enquanto esperávamos o início da atuação do grupo, zahir convidou-nos a ver a produção de kif da casa. levou-nos ao pátio interior e a uma divisão fechada à chave. abrindo-a, tirou um ramo seco, que nos mostrou. explicou-nos que estes ramos secos eram esmagados e, com base no pó daí resultante, se fazia o haxixe. perguntou-nos se queríamos um ramo. agradecendo, declinámos polidamente.
voltámos aos nossos lugares, prontos para assistir ao grupo marroquino. a parafrenália elétrica assustava, tal o tamanho dos amplificadores. quando começaram a tocar o receio materializou-se: um som ensurdecedor. árabe, mas ensurdecedor. o grupo era composto por um violino, tocado à marroquina (isto é, apoiado sobre o joelho), um órgão carregado de eco e várias percussões: uma bateria, uma bateria elétrica que reproduzia batuques, um djambé e uma pandeireta. tudo homens.
mais tarde juntar-se-iam ao grupo 3 elementos femininos, todos de cabeça descoberta: duas dançarinas do ventre (de ventre coberto), que se passearam pela metade masculina da festa recolhendo notas para o grupo (também se aproximaram de nós, mas a rápida intervenção de zahir, dando-lhes uma nota, terminou esse momento), e uma cantora de voz forte e autoritária, que a aparelhagem enchia de eco.
com a atuação deste grupo criou-se uma dinâmica curiosa. enquanto a música tocava a níveis muito elevados, alguns homens dançavam no pequeno espaço à nossa frente. as mulheres permaneciam sentadas. com a justificação de afastá-los da parte das mulheres e de frente das cadeiras da ala dos homens, alguns homens mandavam os dançarinos mais entregues à dança para trás. gerava-se alguma irritação nestes, mas lá se chegavam para trás, resmungando. o resmungar ia ficando mais forte e às tantas surgia a ameaça de luta e pessoas a separar quem discutia. a música parava. eram proferidas palavras apaziguadoras, as mais eficazes provenientes do noivo, um jovem soldado, alto e elegante, de rosto bem desenhado e perfil sereno. a dada altura a luz falhava. e o ciclo repetia-se. repetiu-se três vezes. de início tivemos alguma dificuldade em perceber porque se exaltavam estes homens. não seria do kif. às tantas lá vimos uma garrafa a circular. estava explicado. lá se ia a eficácia da proibição islâmica do álcool. zahir confirmou-nos: bêbados. da terceira vez as coisas resvalaram. após a luz ter voltado, nova troca de palavras mais forte, chegando a haver intervenção ds mulheres, o que pareceu irritar ainda mais os homens em questão, seguido do descambar: alguns homens correm em luta, entrando no lado da casa destinado às mulheres. estas entram em pânico e correm, saltando por cima das filas de cadeiras de plástico. o tipo de coisas que pode correr mal, quando alguém tropeça e é varrido por quem vem atrás (o que felizmente não aconteceu). alguns instrumentos são derrubados no processo. os músicos tomam refúgio na casa, bem como as mulheres. alguns homens, com o noivo à cabeça, tentam acalmar os ânimos. somos convidados a afastarmo-nos do centro da confusão.
as tensões acalmam-se e o noivo sai de cena. mais tarde dizem-nos que se casou nessa altura, não conseguimos perceber bem como. continuamos sem ver a noiva. o noivo volta a circular pela estrada rodeado de bandeiras e ao som da música do primeiro grupo e dos cânticos dos amigos, desta feita a pé. finalmente, instala-se numa mesa baixa, onde há bolos e garrafas de fanta e coca-cola. ficamos na primeira fila. começa agora a parte dos donativos aos noivos. as pessoas aproximam-se e entregam dirhams. ao lado da mesa o irmão do noivo anuncia o dom ao microfone: "salam..." seguido de palavras que não entendemos. contribuímos também. 120 dirhams. lá ouvimos os nossos nomes no megafone. nesta parte já cabeceamos um pouco, cansados do longo dia.
finda esta pequena cerimónia de dons, são distribuídos bolos. a música do segundo grupo recomeça, aos elevados níveis sonoros anteriores, e desta vez vêem-se algumas raparigas e alguns rapazes a dançar em conjunto. zahir pergunta-nos se queremos dormir. sim. somos levados ao quarto, paredes meias com a festa que continua. adormecemos indiferentes aos decibéis de música árabe que nos entram pela janela aberta e ao calor noturno que se faz sentir. eram as seis da manhã.






Sem comentários:
Enviar um comentário