decidi tresmalhar. depois do pequeno-almoço conjunto no hotel cascade, o meu rumo não acompanharia o do resto do grupo: eles seguiriam pelas ruas estreitas de fès em busca das tanoarias e eu ficaria no hotel, ainda com o gosto dos dias anteriores, escrevinhando. soube bem parar o fluxo de novas vivências e sensações e simplesmente estar.
pelas quinze horas, com a boa disposição de que se sintonizou consigo, fiz-me à rua e à medina. ruas estreitas, repletas de lojas. tudo se vende e parece que toda a gente vende algo. é preciso algum calo para se perceber como as coisas funcionam e desenrascar-se bem: os vendedores marroquinos anseiam por encetar uma relação comercial e forçam um pouco a interação. um mero olhar a um produto pode desencadear um processo no qual podemos não estar interessados. às vezes nem isso. topada a pinta de turista começa-se a ouvir "êh amigo..." e a inevitável pergunta de onde vimos. em respondendo somos contemplados com algumas palavras em português e, sem darmos por ela, há uma potencial compra em perspetiva. a pergunta pela nacionalidade não é inocente: cientes da proveniência, ajustam-se os preços ao respectivo poder de compra. neste caso, não convém ser americano. português é ok, estamos falidos dizem.
sem bateria no telemóvel, logo sem fotos, contactos com o resto do grupo ou mesmo noção das horas, fiz caminho em direção às tanoarias, fazendo o meu melhor por ignorar os apelos às compras. ainda perto do hotel era possível entrar na medersa bou inania, uma escola construída no século xiv. é interessante perceber a urbanística da medina: ruas estreitas, confusas e repletas de pessoas podem dar lugar a edifícios com pátios tranquilos. no caso da medersa essa tranquilidade, um silêncio próprio de espaços religiosos, era particularmente intensa, contrastando com a agitação da rua. prossegui em direção às tanoarias, procurando fixar referências visuais que permitissem um regresso tranquilo. andei, andei, para lá da mesquita andaluza, mas as tanoarias não se deixariam encontrar. ficariam nos olhos do resto do grupo e nas fotos do pedro.
foi muito bom reencontrar o resto da malta no hotel. preparámos a tralha e seguimos para a OphéliA, rumo a sul, direção ifrane. abastecidos de jantar numa terreola no caminho, acabámos por fazer uma volta noturna, sob a lua nova, numa área de lagos. após alguma procura, montámos tenda à beira do dayet (lago) aoun, jantámos, tocámos viola e adormecemos.

grande viagem! obrigado pela partilha!
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