acordámos no pinhal junto ao lago meio seco onde estacionáramos a OphéliA no dia anterior. uma boa luz matinal, pequeno-almoço, e seguir viagem: ifrane, depois azrou. zona de residências de férias, designadamente do rei, e estâncias de ski. nada de neves por esta altura do ano, mas muitos cedros. as florestas de cedros são sítios agradáveis no verão, frescas e com um bom aroma, como constatámos ao parar junto ao famoso cedro gouraud, um gigantesco cabide de madeira (o cedro está morto há alguns anos, só resta o esqueleto). na floresta tivemos o primeiro contacto com os macacos marroquinos.
continuámos a estrada, parando para almoçar em ain-leuh. a aparência do sítio era suja, de pequena terreola de montanha, a comida, frita e servida contra todas as indicações higiénicas, era boa. destaque aos figos-pita: deliciosos. matrecada e seguir viagem pela estrada de montanha. chegaríamos às fontes de l'oum-er-rbia pelo fim da tarde. o cenário é deslumbrante: rocha vermelha, escavada pela água em alguns pontos, vários pequenos cursos de água descendo a encosta e muitos abrigos, alguns sendo pontos de venda, outros sítios para comer e para dormir. mais de quarenta fontes nascem aqui, sete delas salgadas, particularidade estranha (estamos a mais de 250 km do mar), explicada pela existência de minas de sal nas imediações. enquanto bebemos o enésimo sumo de laranja, com o sol de fim de tarde a cair nas montanhas, sinto vontade de ficar, gozando o sítio. a longa distância até marrakech e ao mar empurram o grupo para seguir, o que é compreensível e pacífico. seguimos. à medida que percorremos a estrada e a noite vai caindo, escura, o calor abafado e húmido conduz-nos em direção a uma trovoada de verão. primeiro vemos os clarões ao fundo, depois vem a chuva. quando entramos em khénifra chove generosamente e podemos ver os vendedores, excepto os de fruta, cobrindo as bancas expostas ao tempo. sentamo-nos num café para nos orientarmos com o sítio. khénifra apresenta-se como uma cidade confusa, no registo loja aberta à rua a cada metro, com muitas pessoas na rua, carros, motas, carrinhos de mão e burros. ainda antes de conseguirmos estacionar, uma senhora de longo vestido e bebé ao colo, circulando na estrada, fica com o vestido preso ao espelho lateral da OphéliA. sem consequências, mas com direito a protestos da família toda, bebé incluído. talvez pela hora escura a que chegamos, khénifra parece suja e feia, como imaginaríamos uma cidade secundária no paquistão ou na índia. o plano imediato é jantar, o que fazemos num boteco na rua estreita onde estacionámos o carro. é o momento de acertar agulhas. exponho a minha opinião: quero ficar. não é bonito como as cascatas, mas é necessário parar, repor baterias e seguir no dia seguinte. evitar que a viagem se torne uma sucessão de passagens por sítios que se confundem na mente por estarmos em piloto automático. são dez da noite. em lisboa tínhamos falado em jokers. cada um dos elementos do grupo disporia de um, ao jogá-lo podia condicionar a direção do grupo. só se podia usar uma vez. estava disposto a jogar o meu joker num sítio tão feio como khénifra. a vontade do resto do grupo era seguir, rumo a sítios mais bonitos e à costa, sem perder tempo, pois o percurso khénifra - marrakech nada tinha que ver e podia bem ser feito de noite, para ganhar tempo. face a tal demonstração de vontade e ao restabelecimento resultante do jantar, o joker ficaria na carteira. bebemos um café com leite, que nos deu mais sono que outra coisa, entrámos para a OphéliA e seguimos. eram onze da noite. não devemos ter andado 200 metros quando um barulho na suspensão, junto à roda direita, nos fez parar. a volta noturna pelos lagos, na véspera, implicara a passagem por uma estrada de terra particularmente má, com direito a um daqueles "pim!" no chassis que assustam. pusémo-nos de cócoras a analisar: um parafuso tinha-se partido e saído, havia um tubo metálico meio solto. iniciaram-se reparações à beira do passeio, que terminam perto da uma da manhã. a OphéliA estava apta a seguir viagem, embora fosse aconselhável ver um mecânico, para se substituir a peça onde se partira o parafuso, onde faltava também uma borracha. parecia que a OphéliA estava a jogar o seu joker. ficamos? vamos dar uma volta para testar o arranjo do carro, que respondeu bem. ficamos? estamos prontos para seguir. já não consegui bater o pé. ruminaria interiormente a irritação daí resultante ao longo da noite, mas o rumo estava traçado. saímos de khénifra à uma da manhã, direção marrakech (que distava mais de 400 km), sob a escuridão da lua nova, com ideias de dormir num bonito turismo rural algures no caminho. algures a meio do caminho lá desfizemos a ideia de ir bater à porta de um turismo rural às três da manhã. melhor em beni-mellal, cidade grande, aconselhou-nos um polícia numa operação stop. ao longo da viagem descobríramos que os médios da OphéliA estavam calibrados acima do normal, pelo que a grande parte dos carros em sentido contrário nos espetavam com os máximos. virou jogo: "vamos indispor um marroquino!", rubrica radiofónica de escuta exclusiva na OphéliA. beni-mellal, às quatro da madrugada, tocando campainhas e batendo a lindas portas de hotel que permaneceram fechadas e indiferentes aos quatro viajantes. apenas uma coisa a fazer: estrada. no banco de trás da OphéliA tocava-se viola. mais à frente, uma escolha: marrakech (120 km) ou cascatas de ouzoud (mais perto). seguimos para as cascatas. sob a lua nova, perdemo-nos em estradas de mau piso. quase atropelamos um pequeno burro, valendo no caso os reflexos do pedro, notáveis às sete da manhã. chegamos às cascatas passam das oito da manhã. ainda temos forças para percorrer as ruelas de lojas até à base da cascate, subir, escolher entre dois lugares para dormir e finalmente, depois de um banho frio, cair na cama. eram nove horas. acabara o dia.

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